A Raízen não entrou em crise da noite para o dia. Foi uma sequência de decisões racionais tomadas em contextos diferentes — e que se tornaram fatais juntas.
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Pré-requisitos: DRE, fluxo de caixa, margem, taxa de desconto e noções de risco em decisões financeiras.
RAÍZEN 2026 — A Sala de Guerra | MBA Case Study
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🔴 CASO MBA — SITUAÇÃO REAL — MARÇO 2026

RAÍZEN 2026
A SALA DE GUERRA

R$ 55,3 bilhões em dívida. 40 mil empregos. 90 dias.

Dívida Líquida
R$ 55,3 bi
EBITDA Ajustado
R$ 10,36 bi
Alavancagem
5,3x
Patrimônio Líquido
R$ -1,13 bi
⏱ 11 Mar 2026 — Recuperação extrajudicial protocolada 90 dias para decisão
🔴 CEO — Ricardo Mussa
"Construímos uma plataforma de bioenergia para 2035. Não podemos destruir décadas de investimento por uma crise de liquidez de 2026."
🔵 CFO
"Os credores estão na mesa. Cada mês que passa, perdemos poder de negociação. Precisamos de uma proposta concreta em 90 dias."
🟡 Credor — Banco Líder
"EBITDA paga juro, não dívida. Sem desinvestimento real, não renovamos os covenants. Simples assim."

Você está no comitê de reestruturação. Tem os dados, tem os modelos. Qual é a sua recomendação?

📊 RAIZ4
Raízen S.A. (Listada)
Entidade dos dados deste simulador e do caso. Dívida bruta ~R$ 28,4 bi. EBITDA ~R$ 8,1 bi. Alavancagem 3,1x.
🏗️ GRUPO
Grupo Raízen (Consolidado)
Entidade do processo de RE extrajudicial. Dívida quirografária ~R$ 65,1 bi (2,3× maior). Inclui subsidiárias e holdings.
Seção 00

As DFs: 5 Anos que Revelam Tudo

Receita cresceu 37%. EBITDA ficou estagnado. Juros cresceram 65%. Entenda o Efeito Tesoura que comprimiu R$ 4 bi/ano de FCF livre.

Item FY2021 (E) FY2022 FY2023 FY2024 FY2025 9M FY2026 ann.

(E) = Estimado pré-IPO. FY2022–FY2025 = DFPs auditadas Raízen S.A. 9M FY2026 ann. = ITR dez/2025 anualizado (não auditado). FY2025: DL/EBITDA atingiu 3,76× — primeira violação do covenant de 3,5×.

Efeito Tesoura — FCF vs. Juros (R$ bilhões)

EBITDA   FCF Operacional   Juros   FCF pós-Dívida
▲ FY2021: Janela Perdida — Gap apenas R$ 0,15 bi. CDI baixo, EBITDA pico. Chance desperdiçada.
▼ FY2023: Cobertura EBIT/RF cruzou abaixo de 1,0x — espiral de dívida confirmada.

Decomposição DuPont — FY2021 vs FY2025

Ajuste as alavancas e veja o impacto no ROE. O giro melhora, a margem piora — o problema está na rentabilidade, não na eficiência de ativos. Multiplicador Financeiro é positivo e crescente (PL positivo, mas erode com prejuízos).

FY2021 (E)
Margem Líq. 0,63%
×
Giro do Ativo 4,2x
×
Mult. Fin. 5,5x
=
ROE ≈ 14,6%
FY2025
Margem Líq. −1,16%
×
Giro do Ativo 4,9x
×
Mult. Fin. ~12,5x
=
ROE — negativo

🧠 Teste de Diagnóstico

Q-DFS-1

O EBITDA caiu apenas ~19% entre FY2021 e FY2025. Por que o FCF pós-dívida piorou de R$−0,15 bi para R$−5,1 bi — uma deterioração de 34×?

Q-DFS-2

A Cobertura EBIT/RF caiu para 0,43× em 9M FY2026. O que esse índice abaixo de 1,0× implica operacionalmente?

Q-DFS-3

Em FY2021, havia uma "janela perdida" para desalavancar. Qual combinação de fatores tornava aquele momento único?

Seção 01

A Crise: Como Chegamos Aqui

A Raízen não entrou em crise da noite para o dia. Foi uma sequência de decisões racionais tomadas em contextos diferentes — e que se tornaram fatais juntas.

2011
JV Cosan + Shell. R$ 12 bi em ativos combinados. 34 usinas, 6.800 postos Shell, 40 mil empregos. A maior produtora sucroalcooleira do mundo encontra a segunda maior distribuidora de combustíveis do Brasil.
2012–2020
Década de crescimento. Raízen torna-se líder incontestável: #1 em distribuição de combustíveis, #1 em produção sucroenergética. Oxxo cresce para 3.000+ lojas. EBITDA consolida acima de R$ 8 bi/ano.
Ago 2021
IPO histórico na B3. Captação de R$ 6,9 bi. Selic ainda em 5,25%. WACC implícito: ~9-10%. A tese: reinvestir no E2G/Lumina (etanol celulósico) e criar a maior plataforma de bioenergia do mundo.
2022
Programa Capex R$ 49 bi (5 anos). Compromisso com planta Lumina E2G, novas usinas, expansão de biogás. Selic já em 13,75% — mas o capex já foi prometido. Debt sobe para R$ 40+ bi.
2023–2024
Três choques simultâneos. (1) Juros altos persistem — WACC projetos sobe de 9% para 13-16%. (2) Seca severa derruba ATR e volume de cana. (3) Atrasos no E2G/Lumina — capex saiu, receita não voltou. Impairment R$ 8 bi.
2024–2025
Desinvestimentos emergenciais. Oxxo vendido (fato consumado). Usinas: Leme (R$322 mi), Santa Elisa (R$1,05 bi), Rio Brilhante + Passa Tempo (R$1,27 bi), Continental (~R$750 mi). Total: R$3+ bi — não foi suficiente para cobrir o buraco.
3T 25/26
PL vai a zero negativo. Acúmulo de R$ 19,8 bi em perdas (9M 25/26). Patrimônio líquido: R$ -1,13 bi. Covenants violados. Auditores emitem going concern. Rating downgrade: S&P, Fitch, Moody's.
Mar 2026
Recuperação extrajudicial protocolada. Shell compromete R$ 3,5 bi. 47% dos credores unsecured apoiam. 90 dias para proposta completa. É aqui que você entra.
Vozes do conflito — Março 2026
🔴 CEO — Ricardo Mussa
"Construímos o maior projeto de bioenergia do hemisfério sul. O E2G é a fronteira da descarbonização. Destruir isso por uma crise de liquidez de 2026 seria um erro histórico."
🔵 CFO
"O E2G paga juro em 2035. Os credores cobram dívida em 2026. Cada mês sem proposta concreta, o poder de negociação desaparece. Precisamos de caixa — agora."
🟡 Credor Líder (Banco)
"EBITDA paga juro, não dívida. 5,3x de alavancagem com PL negativo não é solvência — é sobrevivência. Sem desinvestimento real e cronograma crível, não renovo covenant."
🟣 Cosan (Controlador)
"Não vamos diluir controle sem necessidade. Prefiro endividamento a perder a Raízen para a Shell ou para credores. Mas R$ 3,5 bi da Shell na mesa muda o cálculo."
🔵 Shell (Sócia)
"Comprometemos R$ 3,5 bi porque acreditamos na plataforma. Mas Shell não aporta capital sem governança clara e plano de desinvestimentos que reduza risco. Parceria tem limite."
🔴 CEO
"Construímos uma plataforma de bioenergia para 2035. Não podemos destruí-la por uma crise de 2026."
🔵 CFO
"Os credores querem garantias. Cada mês que passa, perdemos poder de negociação."
🟡 Credor (Banco)
"EBITDA paga juro, não dívida. Sem desinvestimento, não renovamos covenants."
Por que a Selic alta destruiu o plano pós-IPO?

O IPO de 2021 capturou valuations de mercado com juro próximo de zero. O plano de expansão do E2G foi modelado com WACC de 9-10%. Com a Selic em 13,75% e CDS do Brasil elevado, o WACC de projetos sucroenergéticos saltou para 13-16%.

Terminal value despenca. Um projeto com FCF de R$ 500 mi/ano vale R$ 5 bi a WACC 10% e g 0%. O mesmo vale R$ 3,3 bi a WACC 15%. A queda foi instantânea — o capex já tinha sido comprometido.

Resultado: ativos depreciaram contabilmente (impairment R$ 8 bi), patrimônio líquido entrou em território negativo, e os covenants de alavancagem foram violados.

Q1 — A empresa reporta EBITDA ajustado relevante, mas também patrimônio líquido negativo, alavancagem elevada e alerta de continuidade operacional. Qual interpretação é a mais adequada neste estágio do caso?
Resposta: b)

EBITDA ainda mostra que há motor operacional na companhia. Mas capex, CGL, despesa financeira e estrutura de capital podem consumir esse motor rapidamente. O erro sedutor é supor que EBITDA alto já implica conforto financeiro.
🎯 Por que importa num turnaround real?
Num turnaround, EBITDA positivo é condição necessária, não suficiente. O que mata empresas é o espaço entre EBITDA e caixa livre — preenchido por capex, capital de giro e serviço de dívida. A Raízen tem R$ 10,36 bi de EBITDA mas consome R$ 8,4+ bi antes de chegar no FCF.
Q2 — Um aluno decide vender uma divisão para reduzir dívida e melhora imediatamente o valuation do grupo em sua planilha. Qual é a crítica mais importante a fazer antes de aceitar essa conclusão?
Resposta: c)

O ponto decisivo é separar custo corporativo alocado de custo corporativo realmente evitável, além de reconhecer eventual perda de sinergia. Muita análise de breakup fica bonita demais justamente porque mata custo no papel com velocidade irreal.
🎯 Por que importa num turnaround real?
A lógica do "vendo, logo melhoro" é sedutora em Excel. Na prática: custo corporativo é pegajoso, sinergias são reais e o caixa de venda não chega limpo. No simulador, ajuste o parâmetro "% custo evitável" — veja como o equity responde a essa premissa.
📊 DADOS DESTE SIMULADOR
Grupo Raízen — Consolidado
Os dados divisionais usados nas seções 2–4 são do Grupo Raízen consolidado (maior que a Raízen S.A. listada). Dívida total ~R$ 55 bi. Alavancagem ~5,3×. PL negativo. Reflete a magnitude real da reestruturação.
📋 DADOS DO CASO ESCRITO
Raízen S.A. (RAIZ4) — Listada
O caso utiliza demonstrações da entidade listada Raízen S.A. (RAIZ4). Dívida ~R$ 28,4 bi. Alavancagem 3,1×. A diferença não é erro — são duas entidades distintas. Ver Seção 0 para análise completa.
Seção 02

O Grupo: 4 Motores, 4 Perfis

O grupo Raízen não é monolítico. Cada divisão tem perfil de risco, geração de caixa e valor estratégico completamente distintos.

EBITDA
Capex
ΔCGL
=
FCF
→ Antes do serviço da dívida
EAB — Etanol, Açúcar & Bioenergia
R$ 3,94 bi
9M 25/26 | Anualizado: R$ 5,25 bi
Capex (9M)R$ 4,40 bi
Ativos operac.R$ 32,51 bi
Cana moída70,3 mi t
ATR134,5 kg/t
FCF Negativo
Distribuição Brasil
R$ 4,00 bi
9M 25/26 | Anualizado: R$ 5,33 bi
Volume21,8 mi m³
Postos Shell6.800
Ativo operac.R$ 6,26 bi
CapexBaixo
FCF Positivo
Distribuição Argentina
R$ 1,31 bi
9M 25/26 | Anualizado: R$ 1,74 bi
Var. vs 9M ant.-28,3%
Ativo operac.R$ 9,06 bi
Risco FXAlto (ARS)
StatusCandidata a venda
FCF Decrescente
Corporativo / Overhead
-R$ 1,15 bi
Custo anual consolidado
% Evitável~45%
Custo evitávelR$ 0,52 bi/ano
Custo fixoR$ 0,63 bi/ano
Overhead Puro
Insight Central
EBITDA alto ≠ Caixa livre alto. A Distribuição Brasil tem EBITDA similar ao EAB (R$ 5,33 bi vs R$ 5,25 bi anualizado), mas com fração do capex. O FCF da Distribuição financia toda a máquina. O EAB consome mais caixa do que gera — por causa do capex de expansão do E2G e manutenção das usinas.
Q3 — Um aluno olha para o EAB e conclui que, como a divisão gera EBITDA relevante, ela deve ser preservada integralmente sem maiores ajustes. Qual é a melhor crítica a essa conclusão?
Resposta: d)

EAB não pode ser analisado apenas como plataforma de margem operacional. A divisão combina relevância estratégica com forte exigência de capex (78% do EBITDA) e sensibilidade climática, o que torna o caixa muito mais delicado do que o EBITDA sugere sozinho.
🎯 Por que importa num turnaround real?
Capex de 78% do EBITDA significa que a divisão "devora" quase toda a sua geração operacional em reinvestimento. Com clima adverso, esse número pode superar 100% — transformando o EAB em destruidor de caixa por uma ou duas safras.
Q4 — O aluno identifica Distribuição Brasil como a divisão mais estável do grupo. Qual complemento torna essa análise economicamente mais completa?
Resposta: b)

Distribuição Brasil pode ser uma âncora mais estável, mas isso não autoriza ignorar capital de giro, mix, inadimplência e pressão competitiva. Negócio previsível mal gerido também vira problema de caixa.
🎯 Por que importa num turnaround real?
Com R$ 157/m³ de EBITDA e 21,8 mi m³ de volume, pequenas variações de margem (±R$ 10/m³) movem o EBITDA em R$ 218 mi. É estável — mas não imune a compressão competitiva ou inadimplência em momentos de estresse macro.
Seção 03

Radiografia EAB: O Que Está Escondido?

O caso original trata o EAB como um bloco indivisível. Um turnaround real não funciona assim. Vamos abrir a caixa-preta.

O Problema com "Vender o EAB"
Vender o EAB como bloco único a um múltiplo de 7x EBITDA gera ~R$ 37 bi de valor bruto. Mas os sub-ativos individualmente valem muito mais em múltiplos distintos. Vender bundled destrói R$ 5-15 bi de valor.
Core Canavieiro

Açúcar + Etanol 1G

~R$ 4,20 bi
EBITDA estimado
Capex manutenção~45% EBITDA
FCF estimado~R$ 2,3 bi
Múltiplo de mercado (EBITDA)
6–8x
EV estimado: R$ 25–34 bi
Compradores: players agrícolas, trading houses (Louis Dreyfus, Cargill, Tereos)
E2G / Lumina

Etanol Celulósico 2G

~R$ 0,26 bi
EBITDA atual (incipiente)
Capex expansãoPesado
Volume E2G104,9 mil m³
Múltiplo estratégico/tech
10–15x
EV estimado: R$ 2,6–3,9 bi
Compradores: Shell (sócia JV), fundos cleantech, fundos soberanos ESG
Cogeneration / Bioenergia

Geração de Energia Elétrica

~R$ 0,79 bi
EBITDA estimado
Volume1,656 mi MWh
Preço médioR$ 286/MWh
Múltiplo infraestrutura
12–16x
EV estimado: R$ 9,5–12,6 bi
Compradores: fundos de infra, utilities, BNDES
Bundled vs. Unbundled — A Destruição de Valor
Venda bundled (7x EBITDA médio)
~R$ 37 bi
Venda unbundled (múltiplos específicos)
~R$ 42–51 bi

Diferença: R$ 5–14 bi. Equivale a 1/4 da dívida total. O processo de separação custa ~R$ 0,8 bi e leva 12-18 meses. Ainda assim, a matemática favorece o unbundling.

Simulador EAB — O Que Você Faria?

Selecione uma estratégia e veja o impacto nos KPIs do grupo.

Caixa Gerado
EBITDA que sai
Capex que sai
Alav. Pró-forma
Decomposição do Capex EAB Manutenção: 58% | Expansão: 42%

Impacto no FCF do grupo ao remover capex de expansão:

A Tensão Estratégica
Se vender o E2G: libera ~R$ 1,5 bi/ano de capex. Mas a Raízen passa de "empresa do futuro da bioenergia" para "simples moedor de cana". O mercado vai precificar mais baixo a narrativa — e a Shell pode acionar cláusulas da JV.
Q5: Por que a cogeneration pode valer 14x EBITDA enquanto o core canavieiro vale 7x?
Perfil de risco radicalmente diferente.

A cogeneration tem características de infraestrutura regulada: receita previsível via contratos de longo prazo no mercado de energia, baixo risco de preço, alta previsibilidade de fluxo de caixa. Múltiplos de infra geralmente ficam entre 12-18x EBITDA.

O core canavieiro é commodity pura: exposição a ciclo de cana, clima, preços de açúcar e etanol, câmbio (açúcar é cotado em USD). Múltiplos mais baixos (6-8x) refletem essa volatilidade inerente.
Q6: Qual o principal risco de fazer o unbundling do EAB antes de vender?
Tempo e complexidade operacional.

Separar juridicamente a cogeneration do core canavieiro leva 12-18 meses. Durante esse período: (1) os credores continuam pressionando; (2) a empresa fica em modo de reestruturação — difícil renovar contratos, reter talentos; (3) risco de o mercado se deteriorar durante o processo. O unbundling é ótimo na teoria, mas requer credores pacientes e execução precisa. Em recovery proceedings, tempo é inimigo.
Jornada 4

Saneamento Operacional — Antes de Decidir Vender

Turnaround real não começa vendendo ativo. Começa perguntando: o que podemos melhorar operacionalmente antes de destruir valor via venda? Mas cada melhoria tem custo. Aqui não tem botão mágico.

⚠ Princípio Anti-Videogame

Neste simulador, cada alavanca de melhoria tem um custo de contrapartida explícito. Cortar capex melhora o FCF agora — mas desacelera o E2G e aumenta o risco de deterioração operacional. Reduzir CGL libera caixa — mas pressiona fornecedores.

Turnaround sério troca slogan por trade-off. Use os sliders abaixo para entender o que cada escolha verdadeiramente custa.

EAB — Etanol, Açúcar & Bioenergia

Cortar Capex de Expansão EAB
78% → 78%
78% (atual) 40% (mínimo prudente)
⚑ Benchmark: capex manutenção puro ~40-50% EBITDA · abaixo de 45% = risco operacional alto
✅ Benefício imediato
Selecione um valor acima
⚠ Custo de contrapartida
  • E2G/Lumina desacelera (capex acumulado R$2,4bi em risco)
  • g terminal cai: menos crescimento perpétuo, EV pode cair no longo prazo
  • Abaixo de 50%: risco de deterioração de usinas em 3-4 anos
  • Credores monitoram capex manutenção como covenant informal
Realismo: ---
Reduzir Capital de Giro EAB (ΔCGL)
8% → 8%
8% (atual) -5% (libera caixa agressivo)
⚑ Redução possível: 15-35% do CGL atual · além disso: pressão de fornecedores, risco de ruptura
✅ Benefício imediato
Selecione um valor acima
⚠ Custo de contrapartida
  • Pressão sobre fornecedores de insumos agrícolas — risco de perda de parceiros
  • Risco de execução: CGL de cana tem sazonalidade rígida
  • Caixa liberado é pontual (one-off) — não é FCF recorrente

Distribuição Brasil — Estabilidade com Ressalvas

Eficiência de Capex — Distribuição Brasil
18% → 18%
18% (atual) 10% (mínimo rede 6800 postos)
⚑ Distribuição: capex manutenção rede pode ser diferido até 2 anos sem perda visível
✅ Benefício imediato
Selecione um valor acima
⚠ Custo de contrapartida
  • Diferimento de capex reduz qualidade de rede Shell no médio prazo
  • Risco de perda de contratos Shell se padrão de postos deteriorar
  • Não substitui desinvestimento real — é tempo comprado, não valor criado

Custo Corporativo — Alocado ≠ Evitável

Distinção crítica: custo corporativo alocado é o que o modelo atribui a cada divisão — desaparece no papel quando você vende a divisão. Custo corporativo evitável é o que realmente precisa de ação gerencial para ser eliminado. Confundir os dois é o erro mais comum em análises de breakup.
CUSTO ALOCADO (automático)
R$ 0,63 bi
Some automaticamente quando divisão é vendida. Não requer ação gerencial.
CUSTO EVITÁVEL REAL (gerencial)
R$ 0,52 bi
Requer reestruturação, demissões, fechamento de estruturas. Leva 6-18 meses.
💡 No simulador da Seção 5, o slider "% Evitável" representa o custo evitável real. Ajustá-lo para 80-90% sem fundamento é o exato tipo de erro que leva conselheiros a aprovarem reestruturações que depois falham.
⚖ Plano de Saneamento — Viabilidade Global
FCF Ganho (recorrente/ano)
+R$ 0,00 bi
FCF pós-dívida projetado
Resolve o problema?
Realismo Global do Plano
Mova os sliders acima para ver a avaliação consolidada do plano.
Q-Saneamento — Você corta o capex do EAB de 78% para 45%. O equity do simulador melhora R$ 3 bi. Qual é a interpretação mais prudente?
Resposta: b)

O simulador de Gordon Growth captura FCF melhor com capex menor — mas ele não captura automaticamente a queda no g de perpetuidade (E2G desacelerado), o risco de deterioração operacional nem a sinalização negativa para credores. Modelo melhora. Realidade não necessariamente.
🎯 Por que importa num turnaround real?
Turnaround com corte agressivo de capex frequentemente funciona no Excel e falha na prática. Os credores também sabem disso — eles vão demandar laudo técnico de que o capex cortado é realmente de expansão, não de manutenção. Um plano que corta capex sem distinguir os dois vai ser rejeitado na mesa de negociação.
Seção 04

A Matemática da Dor

Números não mentem. O waterfall de FCF mostra por que EBITDA elevado coexiste com crise de caixa.

A Equação Consolidada
ItemValor (R$ bi)
EBITDA Consolidado (UDM)+10,36
(-) Capex EAB (ann.)-5,87
(-) Capex Distribuição-1,30
(-) ΔCGL estimado-1,20
= FCF antes da dívida~+1,99
(-) Juros estimados (55,3 bi × ~10%)-5,53
= FCF após serviço da dívida~-3,54
Nota sobre anualização dos 9M
Todos os dados de EBITDA e Capex de 9M foram multiplicados por 12/9 (fator 1,333x) para obter base anualizada comparável. Isso assume sazonalidade uniforme — na prática, o 4T tende a ser mais forte para EAB (fim de safra/pico produção). Use com cautela.
WACC — Composição
EAB: Rf (US 10Y 4,5% + CDS BR 2%) + β 1,2 × ERP 6% = 13,5%
Distribuição Brasil: Rf 6,5% + β 1,0 × ERP 6% = 12,5%
Argentina: +200 bps por risco soberano = 14,5%

Fórmula: WACC = Rf + β × ERP (simplificado, empresa privada sem ajuste fiscal explícito)
A Conclusão Inescapável
O grupo gera R$ 10,36 bi de EBITDA. Mas consome R$ 8,4+ bi em capex e ΔCGL. O FCF consolidado é ~R$ 2 bi — antes dos R$ 5,5 bi de juros anuais. O déficit de caixa estrutural é de R$ 3,5+ bi/ano. Sem desinvestimento ou aporte, a empresa queima caixa indefinidamente.
Seção 05

Simulador de Portfolio

Ajuste as premissas de cada divisão e veja o impacto em tempo real no equity da Raízen. Suas hipóteses têm consequências.

Jornadas concluídas antes do simulador
📊 DFs 5 Anos
⚡ A Crise
🏢 O Grupo
🔬 EAB Radiografia
⚖ Saneamento
🎯 Simulador ← aqui
🏁 Síntese Final
💡 Clique em qualquer jornada para revisitar. As decisões do simulador fazem mais sentido após percorrer as jornadas em ordem.
📖 Entenda: Como o simulador calcula os valores? (premissas e metodologia)

Fórmula base (Gordon Growth Model com EBITDA forward):

EV = EBITDA × (1 + g_anual) × (1 − Capex% − ΔCGL%) ÷ (WACC − g_perpetuidade)

Anualização dos dados 9M: Os resultados reportados são de 9 meses (abr 2025 – dez 2025). A anualização usa o fator ×12/9 = ×1,333. EAB: R$3,94 bi → R$5,25 bi; Brasil: R$4,00 bi → R$5,33 bi.

WACC por divisão (decomposição simplificada):

  • EAB: Rf 6,0% + β 1,1 × ERP 5,5% + spread crédito 1,45% = ~13,5%
  • Brasil: Rf 6,0% + β 0,9 × ERP 5,5% + spread crédito 1,45% = ~12,4%
  • Argentina: WACC em USD + país-risco Argentina → ~14,5%

Desconto de venda: Representa o deságio típico em processo de M&A de urgência. EAB: 15% (ativo complexo, capex alto). Brasil: 10% (ativo mais líquido). Argentina: 20% (risco país, urgência).

⚠ O QUE ESTE SIMULADOR NÃO FAZ

  • Não captura valor de opcionalidade: o GGM valoriza fluxos perpétuos estáveis; não precifica a opção real de expandir o E2G em um cenário de mandatos de biocombustível — que pode valer mais do que o modelo sugere.
  • Não modela correlação entre divisões: o Monte Carlo choca cada variável de forma independente. Na prática, seca severa piora EAB e Brasil simultaneamente — a correlação real aumenta a cauda de risco.
  • Não modela timing de credores: assume que a dívida é refinanciada a taxas de mercado. Não captura o risco de um credor declarar vencimento antecipado antes de 90 dias e colapsar a negociação.
  • WACC fixo por divisão: em situações de distress real, o custo de capital cresce à medida que a empresa se aproxima do breach — o simulador usa WACC estático, o que pode subestimar o desconto de valor em cenários pessimistas.
  • Sem sinergias de comprador: o preço de venda usa desconto de urgência, mas não modela o prêmio que um comprador estratégico (Shell, Cosan, Raízen rivals) pagaria pela sinergia — o "valor de uso" pode divergir do "valor de mercado urgente".

Use estes limites para calibrar sua confiança nos resultados — não para descartá-los.

Estratégia de Portfolio — clique para alternar venda de cada divisão
EAB
R$ 5,25 bi
FCF negativo · Capex 78%
● MANTER
DIST. BRASIL
R$ 5,33 bi
FCF positivo · Cash engine
● MANTER
DIST. ARGENTINA
R$ 1,74 bi
-28,3% vs ano ant. · Monetizável?
● MANTER
💡 Ative/desative vendas acima ou use os cenários rápidos. Os sliders de cada divisão permitem ajustar premissas detalhadas.
EBITDA Base (anualizado) R$ 5,25 bi
Crescimento anual 2,5%
Capex / EBITDA 78%
ΔCGL / EBITDA 8%
WACC 13,5%
g perpetuidade 1,0%
Desconto de venda 15%
EBITDA Base (anualizado) R$ 5,33 bi
Crescimento anual 2,0%
Capex / EBITDA 18%
ΔCGL / EBITDA 12%
WACC 12,5%
g perpetuidade 1,5%
Desconto de venda 10%
💡 Argentina não é o maior problema do grupo — gerou R$1,31 bi de EBITDA (9M). Mas é monetizável. Antes de vender, analise: o caixa de venda compensa o EBITDA perdido? Use os sliders para testar.
EBITDA Base (anualizado) R$ 1,74 bi
Crescimento anual 1,5%
Capex / EBITDA 28%
ΔCGL / EBITDA 10%
WACC 14,5%
g perpetuidade 1,0%
Desconto de venda 20%
Custo corporativo anual R$ 1,15 bi
% Evitável 45%
Perda de sinergia (sobre EV) 8%
Custo de separação R$ 0,80 bi
Dívida líquida R$ 55,3 bi
🟢 APORTE DE CAPITAL / EMISSÃO DE NOVAS AÇÕES

Entra caixa novo. Acionista existente ou investidor novo injeta recursos. Reduz dívida líquida via pagamento. Dilui acionistas na proporção do preço de emissão.

Aporte / emissão de novas ações R$ 0,0 bi
🔴 CONVERSÃO DÍVIDA → EQUITY (Debt-to-Equity Swap)

Não entra caixa. O banco troca crédito por ações. Reduz dívida no balanço, aumenta equity contábil, dilui acionistas originais.

Conversão dívida → equity R$ 0,0 bi
🟣 APORTE SHELL — CONTEXTO REAL (Mar/2026)

Shell já comprometeu R$ 3,5 bi como parte da RE protocolada em março/2026. Esse aporte entra como caixa novo — reduz dívida líquida, dilui participação de Cosan.

⚠ Trade-off: cada R$ 1 bi adicional que a Shell aporta → Cosan dilui ~2-3% de participação. Acima de R$ 7 bi total, Shell pode ultrapassar 40% e discutir controle.

Aporte Shell total (R$ 3,5 bi já assumidos) R$ 3,5 bi
Shell: 27% → estima +2% por R$1bi adicional
🔵 CAIXA DE DESINVESTIMENTOS (calculado automaticamente)

Resultado das vendas marcadas acima. Aplicado integralmente à quitação de dívida no modelo.

Caixa mínimo necessário R$ 8,0 bi
Resultado — Soma das Partes
EV EAB
EV Brasil
EV Argentina
EV Soma das Partes
Dívida Ajustada
Equity Implícito
Alavancagem Pró-forma
Caixa Após Operação
Ajuste os parâmetros
Breakdown por Divisão — Detalhamento
Divisão EBITDA fwd Capex est. CGL est. FCF simpl. EV calc. Múltiplo Valor venda Status
Comparação de Cenários — Seu Cenário vs. Benchmarks
Métrica Manter Tudo Vender Arg. EAB+Arg. Breakup Total Seu Cenário
Q7 — Você vende a Divisão Argentina e a dívida cai significativamente no simulador. Qual é a crítica mais importante antes de aceitar essa conclusão como definitiva?
Resposta: c)

Vender divisão não melhora automaticamente o equity. A Argentina tem R$ 1,74 bi de EBITDA anualizado — mesmo com desconto de venda, o caixa que entra precisa compensar a perda permanente dessa geração. Mais: parte do corporate overhead não desaparece ao vender.
🎯 Por que importa num turnaround real?
No simulador, ajuste o parâmetro "% custo evitável" para 0% e veja como o equity muda ao vender Argentina. Isso mostra como o corporate overhead pegajoso pode transformar uma venda aparentemente boa em destruição de valor.
Q8 — Você reduz muito o Capex/EBITDA do EAB (de 78% para 40%) e o valor da divisão sobe muito no simulador. Qual interpretação é mais prudente?
Resposta: b)

Negócio intensivo em capital raramente perdoa. O EAB tem 40 usinas que precisam de manutenção constante, renovação de canaviais e sistemas de bioenergia. Se cortar capex faz o valuation explodir sem dano operacional, o modelo ficou otimista demais.
🎯 Por que importa num turnaround real?
No setor sucroenergético, o capex de manutenção puro gira em torno de 45-50% do EBITDA. Abaixo disso, as usinas começam a deteriorar silenciosamente — o que só aparece nos números 3-5 anos depois, quando é tarde para corrigir.
Seção 06

Monte Carlo: Sua Tese Aguenta?

Um ponto no DCF é ficção. A realidade tem distribuição. Teste se sua hipótese resiste ao cenário adverso.

Por que Monte Carlo?
Você escolheu premissas no simulador. Mas e se o crescimento do EAB for -3% em vez de +2,5%? E se o WACC subir mais 2%? O Monte Carlo roda 1.000 cenários com variáveis aleatórias dentro dos ranges que você define — e mostra a distribuição de probabilidade do equity resultante.
Crescimento EAB (g_eab)
Mínimo
Máximo
Capex EAB (% EBITDA)
Mínimo
Máximo
Crescimento Brasil
Mínimo
Máximo
EBITDA Argentina (var. %)
Mínimo
Máximo
Variação do WACC (± bps sobre base)
Mínimo (bps)
Máximo (bps)
Escolha qual cenário rodar
Calculando...
P10 Equity
P50 Equity (Mediana)
P90 Equity
P(equity > 0)
P(leverage < 4x)
Avaliação de Risco
Interpretação
Rode a simulação para ver a interpretação.
Q9 — A distribuição do equity (após rodar a simulação) mostra P50 positivo, mas P10 muito negativo. Qual é a leitura mais prudente para um comitê de crédito?
Resposta: b)

Mediana positiva com cauda esquerda muito ruim indica tese que parece atraente no centro, mas pode ser perigosa no downside. Para uma empresa com R$ 55 bi de dívida, P10 de equity muito negativo representa risco real de insolvência em 1 em cada 10 cenários.
🎯 Por que importa num turnaround real?
Monte Carlo não serve para "prever" o futuro — serve para revelar onde a tese quebra. P10 muito negativo com P50 positivo frequentemente indica uma variável não-linear: clima (ATR), câmbio, ou WACC em ambiente de stress. Identifique qual variável está dirigindo a cauda.
Q10 — Vender a Argentina no simulador reduz muito a cauda ruim (P10 melhora significativamente) mas quase não altera a mediana (cai pouco). O que esse padrão sugere?
Resposta: c)

Quando uma ação melhora significativamente o downside e quase não afeta a mediana, ela está funcionando como seguro — você paga um prêmio pequeno (menor upside) para eliminar um risco grande (cauda ruim). Esse é o argumento de robustez em recuperações extrajudiciais.
🎯 Por que importa num turnaround real?
Numa recuperação extrajudicial, credores não querem maximizar o upside — querem eliminar a possibilidade de insolvência. Mostrar que a venda da Argentina reduz o P10 de equity drasticamente é um argumento de primeira ordem para a mesa de negociação.
Seção 07

Boardroom: Você Precisa Assinar

Chega de análise. O comitê está esperando. Qual é a sua recomendação? O silêncio também é uma decisão.

Selecione sua estratégia:

🔵 A — Manter grupo integrado com reestruturação interna
Refinanciamento da dívida, corte de overhead, redução do capex de expansão. Nenhuma venda de divisão.
🟠 B — Vender Argentina + monetizar ativos EAB (E2G/Cogen)
Desinvestimento seletivo. Mantém o core canavieiro e a Distribuição Brasil. Reduz dívida em ~R$ 15-20 bi.
🔴 C — Venda parcial: Argentina + EAB inteiro, manter Distribuição Brasil
Vende tudo exceto o cash engine. Foca na operação mais lucrativa e menos capital-intensiva.
⚫ D — Liquidação controlada (vender tudo, pagar dívida)
Breakup total. Maximiza a recuperação dos credores. Destrói o grupo mas protege os ativos individualmente.

VERIFICAÇÃO DE COERÊNCIA (dados do Simulador)

Selecione uma estratégia e ajuste o Simulador (Seção 5) para ver a coerência da sua tese.

Suas condições mínimas para aprovação:

Parecer ao Conselho (use o template abaixo):

✅ RECOMENDAÇÃO ASSINADA
Estratégia escolhida:
Equity implícito (do simulador):
Alavancagem pró-forma:
Condições mínimas:

Documento gerado em: | Raízen MBA Case Study — Axioma Treinamentos 2026
Q11 — A probabilidade de equity negativo no Monte Carlo está em ~30% e a alavancagem pró-forma ainda é alta. Qual postura costuma ser mais coerente para um conselho de administração?
Resposta: b)

Quando o downside é relevante, aprovar sem condições tende a ser incoerente. Conselho sério aprova com trilhos, não com esperança. Condições mínimas são instrumentos de governança — protegem o conselheiro e a empresa.
🎯 Por que importa num turnaround real?
Em turnarounds reais, o parecer ao conselho tem força legal. Um voto sem condições é um voto sem proteção. Gatilhos de revisão ("se alavancagem superar 4x em 12 meses, revisamos obrigatoriamente") não são fraqueza — são responsabilidade fiduciária.
Q12 — Um aluno escreveu uma recomendação clara — "vender Argentina e manter o restante" — mas sem citar riscos, condições mínimas ou gatilho de revisão. O que falta para o texto parecer um parecer de conselho?
Resposta: c)

Bom parecer de conselho não é só escolher um lado. É explicitar: (1) o fundamento analítico que suporta a escolha, (2) o risco principal que pode invalidar a tese, (3) a condição mínima sem a qual não se aprova, (4) o evento que forçaria revisão da decisão. Conselho não aprova "vibes" — aprova teses com trilhos.
🎯 Por que importa num turnaround real?
Um conselheiro que vota sem registrar condições fica exposto se a tese falhar. O parecer com fundamento + risco + condição + gatilho é documentação que protege o conselheiro e disciplina a gestão ao longo da execução.
Síntese Final

5 Regras Operacionais que emergem do caso

Não são respostas — são critérios de decisão transferíveis para outros contextos. Um bom caso não ensina o que decidir. Ensina como pensar sobre decisões parecidas.

Regra 1 — O Efeito Tesoura é bifronte

Quando EBITDA comprime e juros crescem simultaneamente, o FCF não deteriora linearmente — deteriora de forma multiplicativa.

No caso Raízen: EBITDA caiu ~9% entre FY2021 e 9M FY2026 (ann.), mas os juros cresceram 86% no mesmo período. O FCF pós-dívida passou de −R$0,15 bi para −R$5,1 bi. Quando você vê margem estreita + alavancagem alta + juros crescentes, o problema composta sozinho — não espere o breach para agir.

Aplicação: toda empresa com EBITDA < 5% e DL/EBITDA > 2,5x está exposta a este efeito em ambiente de juros altos.
Regra 2 — A janela de desalavancagem fecha sem aviso

A melhor hora para amortizar dívida é quando você não precisa — não quando os credores pedem.

Em FY2021, a Raízen tinha DL/EBITDA de 2,0x — o mínimo histórico — e estava em meio a um boom de commodities. Era o momento de usar o FCF excepcional para reduzir estruturalmente a alavancagem. A decisão de reinvestir tudo em capex de expansão (E2G) era racionalmente defensável — mas encerrou a janela. Janelas de desalavancagem são estreitas e assimétricas: fácil de perceber no retrospecto, difícil de priorizar no prospecto.

Aplicação: todo plano de capex intensivo deve incluir um teste explícito: "se este ciclo virar, temos como sobreviver com esta estrutura de capital?"
Regra 3 — Conglomerado saudável ≠ divisões saudáveis

Um grupo pode estar tecnicamente insolvente mesmo quando cada divisão parece lucrativa no papel.

Distribuição Brasil gera FCF operacional positivo e robusto. EAB tem EBITDA expressivo e ativos reais. Argentina é rentável em USD. E ainda assim o grupo não consegue cobrir os juros — porque o capex consolidado, o custo corporativo e a dívida centralizada consomem tudo. Em um conglomerado, a análise deve sempre reconciliar o consolidado com o divisional — divergências grandes indicam problemas de alocação ou subsidização cruzada.

Aplicação: ao analisar qualquer grupo diversificado, calcule o FCF livre de cada segmento antes e depois da alocação corporativa — a diferença revela o custo real do conglomerado.
Regra 4 — Restrições estruturais limitam o espaço de soluções

Em reestruturações, nem todas as soluções matematicamente viáveis são juridicamente ou estrategicamente possíveis.

A Shell tem R$3,5 bi para aportar mas não pode ultrapassar 50% da Raízen sem consolidar R$65 bi de dívida em seu balanço (IFRS 10 / CPC 36). A Cosan não tem caixa equivalente para manter paridade. Credores precisam de aprovação de maioria qualificada. O TJSP tem prazos de 90 e 180 dias. Antes de escolher uma estratégia, mapeie as restrições que reduzem o espaço de soluções — o que parece ótimo no modelo pode ser inviável na prática.

Aplicação: em qualquer decisão M&A, reestruturação ou captação, identifique primeiro as restrições hard (regulatório, contratual, contábil) antes de otimizar variáveis financeiras.
Regra 5 — GGM valoriza fluxos normalizados, não fluxos correntes

O múltiplo implícito do Gordon Growth Model só faz sentido se as premissas de perpetuidade forem críveis — e separadas das premissas de fase de investimento.

O EV do EAB no modelo GGM é ~R$5,8 bi com múltiplo implícito de ~1,1x EBITDA. Transações comparáveis sugerem 6–8x. A diferença não é erro — é premissa: o GGM usa o FCF normalizado pós-E2G (capex de manutenção apenas), enquanto o mercado precifica o ativo em operação estabilizada. Quando o FCF corrente é negativo mas o ativo tem valor estratégico, o modelo GGM só captura uma parte do valor — e isso é intencional, não um defeito.

Aplicação: em qualquer valuation com GGM ou DCF, seja explícito sobre qual "estágio" de FCF o modelo representa — fase de crescimento, transição ou maturidade.

O que você leva desta sessão

Mais do que a escolha certa para a Raízen — você treinou um critério de decisão. Quando encontrar uma empresa com margem estreita, alavancagem crescente e vencimentos concentrados, agora você sabe onde olhar: o efeito tesoura, a janela perdida, as restrições estruturais, e a diferença entre valor corrente e valor normalizado.

Critério de decisão transferível: em qualquer turnaround ou reestruturação, a pergunta não é "qual alternativa maximiza o valor?" — é "qual alternativa é viável, defensável e robusta às restrições que não consigo controlar?"